No início, o que havia era o belo. Não havia medo algum, ou dor. Em seu lugar, ruborizava a alma um pulsante encantamento por cada cenário descortinado no grande palco em que caíra. Permaneceram-me, por décadas, latente, as primeiras impressões, sensações primárias de maravilhamento. O vislumbre pelo todo e o vislumbre pelo detalhe. Singular, comum, pequenino, grandioso.
Não nos parece natural, aqui, neste lugar, que a divindade permaneça dentro de si por tanto. Não nos parece; porém, que o perverso é a sua corrupção.
No início, o que havia era o puro. A pureza, no entanto, era maculada pelas dores de sua queda.
Pousou-me a mão, grande pena que caíra do pássaro mítico, ressurgido das cinzas para escrever alegrias. Tenho o coração brando e o sorriso leve, no íntimo carrego grandes súplicas de perdão; não são, como outrora, devotamentos pesados, mas súplicas laureadas por sentimentos de contentamento e gratidão. Desfazendo-me das quimeras alegóricas e literárias, venho dizer sobre certo tipo de cura, não total, mas estável, ainda que carregada pelas impressões do passado. Correndo o risco de discorrer parágrafos lamechados, eis aqui a força motriz que nos salva a todos: se o medo da danação eterna não vence o desequilíbrio, não nos motiva vitória, nos resta o amor àqueles que compartilham nossa jornada. Sei que em tempos de desapego, de egoísmos transfigurados, defendidos em falso estandarte de liberdade, essa palavra, amor, não está em voga. No entanto, ela me foi dolorosamente lapidada. Não farei aqui, entretanto, um discurso ingênuo, é necessária ajuda específica. Precisamos encarar o pr...
